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[Terça-feira, Março 08, 2005]
Não é de hoje que alguns artistas brasileiros se vêem obrigados a deixar o próprio país em busca da realização profissional numa área que praticamente inexiste em nossas terras: as histórias em quadrinhos. É lugar comum falar das dificuldades que se encontra para publicar e sobreviver da nona arte nacional.
Por outro lado, nós, brasileiros, temos o estranho costume de somente começar a valorizar nossos talentos a partir do momento em que eles começam a se destacar no exterior. Sejam artistas plásticos, jogadores de futebol, músicos ou quadrinistas, são incontáveis os casos de gente que só ficou conhecida no próprio país após se fazer conhecer em territórios estrangeiros.
Há, no entanto, alguns casos em que nossos artistas se tornam verdadeiras celebridades em outros paises, mas continuam incógnitas em sua terra natal. Há gente como Allain Voss, dentre esses, mas o nome de André LeBlanc talvez seja o mais celebre entre os artistas nacionais que não são assim tão celebres no Brasil.
Mas o processo continua a ocorrer. Mais e mais artistas encontram as portas abertas das editoras americanas, por exemplo, para publicar seus trabalhos e mudam seus nomes e passam a fazer parte da história da HQ nacional de um outro pais que não o próprio (vejam bem, isso não e uma critica, apenas uma constatação).
O Gibiblog apresenta, desta vez, uma matéria com um artista que consta do GUIDA AL FUMETTO ITALIANO, a mais recente e atual enciclopédia sobre os quadrinhos italianos, mas que não pode ser encontrado em nenhum guia brasileiro. Wilson Vieira além de ser o atual tradutor de Ken Parker para o Brasil está lançando seu novo álbum: CANGACEIROS - HOMENS DE COURO. E ele dificilmente poderia ter escolhido melhor companhia para sua reestréia nos quadrinhos brasileiros. Os desenhos estão a cargo de ninguém menos que Eugenio Colonnese e a capa é de Mozart Couto.
E, para apresentar aos leitores brasileiros esse velho conhecido dos leitores de fumetti, ninguém melhor do que o próprio Wilson Vieira, em uma pequena autobiografia:
Nasci na capital paulista em 28 de agosto de 1949. Em 1973 fui para a Itália continuar os meus estudos em História/Arqueologia, mas felizmente, acabei estudando Artes no Instituto d´Arte Lorenzo de´Medici di Firenze e também nessa época trabalhei como desenhista de HQs no Studio Staff di If em Gênova, onde realizei episódios completos de histórias e desenhos de: La Furia del West, L´Uomo - Ragno (O Homem-Aranha), FF Quattro (O Quarteto Fantástico), Diabolik, Hondo, Davy Cockett, El Tigre, Corsaro Nero, Jack, El Coyote, Tarzan e dezenas de outros personagens, desenvolvendo assim variados temas como: terror, ficção, suspense, policial, western, guerra, romance, drama, etc. Também realizei trabalhos para o mais popular herói de "western" da Itália na época juntamente com Tex, que era o Il Piccolo Ranger (No Brasil foram publicados alguns episódios, com o nome de O Pequeno Ranger), para o mais importante editor Europeu; Sergio Bonelli. Meus desenhos foram publicados pelas revistas de maiores tiragens do gênero: Il Monello (série Commisario Norton), Intrepido (série Paris Jour). Entre 1978/1980, colaborei com a Editora Epierre (Edizione & Produzioni Redazionali), de Milão, com trabalhos para as revistas de HQs, Kiwi, Amok, Pecos Bill, Dusty e Collana Telefumetto. Neste período, meus trabalhos foram distribuídos para outras Editoras Européias, sendo publicados em diversas línguas. Além disso, mantive contato com os principais profissionais de HQs da Europa e participei das mais importantes Feiras, Salões e Exposições Italianas da Nona Arte. No final de 1980, depois de participar de Lucca 14, onde acabei conhecendo o jornalista Wagner Augusto (e também o editor do CLUQ - Clube dos Quadrinhos), retornei ao Brasil. No ano seguinte, em 1981, trabalhei no Estúdio de Arte Iara de Marchi, como professor de Desenho Artístico. Na mesma época, lecionei HQs e Desenho Artístico no Studio Renovart e realizei uma série de trabalhos de ilustração para a Sociedade Ornitológica Bandeirante, em São Paulo. Também nesse mesmo ano, desenhei para a revista Sexy West (n.o 2) da Grafipar (Curitiba - PR), a história "O carrasco", escrita por Franco de Rosa. Em 1982. O Centro de Desenvolvimento Profissional "José Papa Junior" (SENAC-SP) me convidou para ensinar HQs e Desenho, para o Curso Básico de Publicidade. Com todo esse currículo, assumi todas essas atividades por causa da impossibilidade de me profissionalizar também aqui no Brasil como Quadrinista. Mesmo sem vislumbrar um fio de esperança para uma possível produção nacional, continuei trabalhando. Lia meu artista preferido, Joe Kubert (o pai) e pesquisava. Em 1983, decidi então abandonar o desenho e dedicar-me somente aos roteiros e argumentos de HQs. Coloquei em prática um velho projeto, elaborado ainda durante o período Italiano e dei início a quadrinização de um personagem de minha criação: Gringo (ainda permanece inédito no Brasil (história com 75 páginas), juntamente com uma animação colorida de 30" do personagem), com desenhos de Aloísio de Castro. Tal tarefa animada ficou a cargo de meu primo Clóvis Vieira, o diretor e animador de Cassiopeia. Um trabalho naquela época de 7 anos de experiências com as HQs e de minhas incansáveis pesquisas realizadas para histórias de western. Em 1985, colaborei com a Editora D-Arte (São Paulo - SP) do Mecenas das HQs Brasileiras, o artista e editor Rodolfo Zalla, na revista Calafrio (n.o 26), com a história "Censurado", sempre com os desenhos de Aloísio de Castro e apresentado ao leitor Brasileiro com uma biografia escrita por Wagner Augusto. Lecionei também HQs na Academia de Artes Plásticas do consagrado pintor Uruguaio Pedro Alzaga. Em 2004, finalmente após muitos anos de "gaveta", foi editado o meu mais recente trabalho como autor feito no Brasil: CANGACEIROS - HOMENS DE COURO, pelo CLUQ, trabalho esse bem aceito pela crítica e leitores, tanto aqui como na Itália e Portugal. Meus trabalhos foram mencionados na mais atual e completa Enciclopédia Italiana sobre Quadrinhos: La Guida al Fumetto Italiano. Fui também citado no Almanaque Tex (original Italiano) de 1994, como um dos inúmeros desenhistas "Bonellianos", por ter desenhado episódios do Il Piccolo Ranger, num livreto descritivo, intitulado: Foto di Famiglia. Recentemente fui novamente mencionado pelo Editor Sergio Bonelli na revista Mister No de dezembro último, na qual ele cita CANGACEIROS - HOMENS DE COURO e ilustrando também o texto com um de meus desenhos do personagem que lá desenhei. Faço parte também do Museu Virtuale del Fumetto - Comic Art Visual Museum, no ítem Staff di If, do qual fui colaborador. Atualmente continuo escrevendo e já terminei 16 episódios com 96 páginas cada de uma série western de nome (top secret), ambientada durante a Guerra de Secessão, estou também fazendo a versão para a língua Italiana...E escrevo...Escrevo...
Caio, aí está um pequeno resumo de + ou - 30 anos de minha carreira profissional dedicada aos Quadrinhos, e que no Brasil é práticamente desconhecida...Um abração.
Wilson Vieira responde algumas de nossas perguntas:
GB : Suas primeiras memórias em Quadrinhos. Quais são as imagens mais antigas de você lendo?
WV: Bem...A minha memória guardou algo como...Fantasma, Flash Gordon, Cavaleiro Solitário...Reminiscências...
GB : Um gibi que te vem à mente?
WV: Cavaleiro Negro...Porque sempre fui um insano fanático do tema "western" e isso tem uma razão simples. Morei dos 7 aos 14 anos no interior de São Paulo, numa pequena cidade (então), chamada Castilho, e lá via sempre imensas boiadas passando com seus boiadeiros descendo empoeirados de seus cavalos e entrando em armazéns para tomarem algo gelado. Cenas típicas do Velho Oeste...Essas imagens ficaram cravadas em minha alma, para sempre.
GB : O seu talento apareceu cedo? Você sempre foi bom em desenhos ou precisou praticar bastante?
WV: Não, foi tudo um longo aprendizado pela vida, sou o que chamam de "artista construído". Foi tudo feito lentamente e exercitado dia-após-dia. Comecei observando o meu pai desenhando, já aqui em São Paulo, o rosto de Napoleão Bonaparte daquele jeito "quadriculado" para aumentar a imagem...Ali...Despertou algo dentro de mim para com o desenho. Mas somente em 1969 passei a freqüentar a minha primeira escola de desenhos, a Escola Poliarte de São Paulo, onde completei o curso de Desenho de Propaganda e Artístico, tal escola já não existe mais e era no bairro do Ipiranga, onde também eu nasci.
GB : Qual foi o momento em que você pensou: cara é possível, eu realmente posso ser um artista em Quadrinhos?
WV: Bem, naquele tempo não pensava nisso...Mas muito lentamente fui tomado de amores pelo lápis e ele por mim. Depois, no final de 1972 eu fui para a Europa (Itália) estudar História/Arqueologia, mas acabei felizmente fazendo Artes no Istituto d´Arte Lorenzo de Medici di Firenze e paralelamente ingressei no estúdio STAFF DI IF de Quadrinhos em Genova. Como disse antes tudo foi muito lento...Fui apresentado profissionalmente ao lápis, nankim, guache, fundos, coadjuvantes, personagens centrais, tudo por etapas, num aprendizado longo, mas altamente proveitoso. Naquele tempo encarava mais como um trabalho do que ser um artista, foi uma evolução natural em minha trajetória profissional.
GB : E quais foram às primeiras decepções com os Quadrinhos?
WV: Bem, isso foi mais tarde, já no Brasil...Voltemos então à Itália...Lá cheguei onde um profissional (desenhista) de HQs subordinado a um estúdio poderia chegar; desenhei o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Tarzan, Diabolik e dezenas de outros personagens durante 7 anos e finalmente acabei por desenhar para o mais importante editor Europeu, que é Sergio Bonelli, para a sua editora desenhei episódios do popular Il Piccolo Ranger.
GB : É realmente frustrante ser Quadrinista no Brasil? O que te dá força para continuar?
WV: Frustrante acho que não seria a palavra exata... É sim desolador, a força vem pela paixão avassaladora que tenho com a imagem desenhada...Bem continuando o meu relato, no final de 1980 eu conheci o jornalista Wagner Augusto, editor do CLUQ - Clube dos Quadrinhos no Festival de Lucca. Logo em seguida retornei ao Brasil. Em 1981 conheci o também jornalista Franco de Rosa, para o qual desenhei a minha derradeira história (O carrasco) para a revista Sexy West (n.o 2) para a Editora Grafipar (Curitiba - PR). Em 1985, Wagner Augusto escreve a minha biografia brasileira e apresentou-me o artista Rodolfo Zalla, para o qual escrevi a história "Censurado" para a revista Calafrio (São Paulo - SP) para sua Editora D-Arte, com desenhos de Aloísio de Castro...Assim sou lançado nacionalmente.
GB : Foram muitas as tentativas de publicar no Brasil?
WV: Incontáveis...E a resposta era sempre a mesma...Puxa que belo trabalho você faz...Porém nada acontecia. Daí em 1983 passei a ser somente argumentista/roteirista de HQs, pois sempre acreditei em histórias/temas bem fundamentados numa profunda pesquisa. E isso toma tempo demais e não acredito no artista argumentista/roteirista/desenhista/letrerista de si próprio...Isso eu aprendi muito bem na Europa...Quadrinhos deve ser sempre uma cadeia de produção perfeita e cada um em sua real função.
GB : Quais são os artistas que mais te influenciaram?
WV: São dois: Michelangelo e Joe Kubert (o pai), ambos perfeitos anatomistas.
GB : Há alguém em especial em que você se inspira?
WV: Bem, por um bom tempo fiquei com a influência Acadêmica...Daí o mestre dos mestres...Michelangelo.
GB : Você tem contato com artistas brasileiros?
WV: Não...Não tenho, primeiro por falta de tempo, mas encontro alguns deles em lançamentos e "trocamos figurinhas", como sempre.
GB : Conte como é a sua relação com eles?
WV: Primeiro que quase ninguém me conhece, portanto temos digamos relações cordiais...Cada um fala o que está fazendo...Essas coisas...
GB : Como os conheceu?
WV: Bem, conheci bem mais alguns artistas Europeus tais como: Hugo Pratt, Milazzo, Berardi, e um autor muito especial, o espanhol Victor de la Fuente, criador de Amargo, Mortimer, Mathai-Dor e outros, um apaixonado em "western", como eu. Sempre no Staff di If ou nas exposições das quais participei em Lucca, Milano, Roma e Genova.
GB : Teve alguém no mundo da Nona Arte que te deu aquele frio na barriga quando você viu de perto?
WV: Não. Era jovem e para mim aquilo era mais trabalho do que diversão e todos os grandes artistas são humildes. O que queria mesmo era ser um bom desenhista, mesmo convivendo o meu dia-a-dia com todas essa "feras".
GB : O seu melhor trabalho, qual é?
WV: Na atualidade são dois. O primeiro é a série CANGACEIROS - HOMENS DE COURO, com a previsão de 20 álbuns com 96 páginas cada e o segundo é uma série "western" (top secret) com 16 episódios fechados, também com 96 páginas cada, mas penso em álbuns coloridos no formato Europeu, porém interligados entre eles. Esta série já escrevi em Português e estou fazendo a versão para o Italiano, será algo diferente de Tex, Magico Vento ou Ken Parker...Só dou uma dica...O personagem adora café brasileiro...É só esperar para ver!
GB : O que você acha dos roteiros Brasileiros?
WV: Eu pessoalmente não gosto (há ótimas exceções), pois em sua maioria são escritos a "toque de caixa', muito superficialmente, com histórias banais, só para serem colocados nas bancas o mais rápido possível. Não esqueça que vim de uma escola Européia, onde tudo é pesquisado... do arreio de um cavalo ao jato supersônico. Pesquisa é e será sempre a chave de uma boa HQ.
Nao deixem de visitar:
O site da editora: http://fotolog.terra.com.br/cluq
A enciclopédia em que o autor é mencionado : http://www.ifedizioni.it
por CAIO CESAR CHRISTIANO * 6:49 PM
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